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quarta-feira, 22 de julho de 2015

O dia da caça

E no mesmo espelho que te vejo reflexo
Ouço de ti o grito em canção ardilosa
É sim assim a voz pavorosa de teu lamento
Sublime lamento tal o órgão melancólico
Espadas cortaram-te o corpo
Sorrisos sagraram-te os olhos
Tão somente os ombros marcados
Entre as flores e os sexos
Entre os rios de pecado subiu teu ódio
E os punhos dilacerados
Surraram o dia e a noite para espantá-los
Espantar os mortos e os semi-vivos
Tornou-se túmulo
Ao súbito inverno da alma
Onde as psichés vagam entristecidas
E os devaneios somem na fumaça do teu mundo
Onde a lama escura recobre teus pés
E a úmida noite afasta os quase-bons
Empalidece a cada pranto
E o silêncio te corta a nuca
Te cerra a nota fúnebre do vazio
O zelo do tempo sobre tua carne é de apavorar
Sumiram os dias, como pó de giz ao vento
Descobriu-se voz aquebrantando as lágrimas cedidas
Lágrimas ácidas cedidas vagarosamente
Da luta vã de levantar-se e sobreviver
Dos brilhos escassos
E entregou-se
A promiscuidade desesperada
E aos vulcões instáveis da felicidade comprimida
Ao som das bachianas
Entre as quatro sólidas
Perante teu rosto sorrindo risos de pecado e fé
"Não há de quê" diria a qualquer ponta-pé descabido
Pois há aqui ou aí em ti uma certa punição a se receber
Pelos infames pesadelos e sonhos
Pelos olhos infantis
Pelas quase-mortes concebidas em si
E nas sombras das águas eu vejo teus sonhos
Como asas de pássaros flamejantes
Como albatrozes viajantes
E torrentes de todos aqueles querubins
E por entre os pedaços de céu
Caídos por aí de tuas vidas
Eu pude ver teus desvelos
Tuas desventuras murmuradas
Suas quedas contínuas rumo ao abismo contente
Perigoso abismo do submundo
Cruel e inabalavel
Metido por entre as pernas de fininho
Pra se esconder dos podres por aí
Pra esconder teus podres e poderes por aí
Foi numa visita epilética aos teus olhos intensos
Onde ficou visível toda a compreensão de mundo
A violenta dança de todos os homens mortos
A vida fugaz
O assassinato incapaz de si mesmo
E Cronos vivendo e morrendo em sua cabeça
Mil por hora seus pensamentos, cada um
Cortados seus braços que outrora curtos eram
E tuas pálpebras arrancadas de punhal
Fora sim forçado a ver cada pedacinho
Cada gotícula da chuva negra
Cada crucificação de teus ídolos
Partidos
Negados
Antagonistas
É assim
Eu te ceguei hoje
Não poderás mais ver
Nenhuma cor
Serei tua maldição eterna
Tua bendita maldição
Teu assassino livrador


-Flavio Santos

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